O que a História da Eletricidade Nos Ensina Sobre IA



Foto de capa: Leohoho no Unsplash.
Introdução
Tenho participado de alguns workshops, assistido a conferências (como o SXSW e o Web Summit em video-conferência) e ouvido diversos podcasts. O que tenho percebido é a crescente preocupação das pessoas com o que estamos realmente presenciando como uma revolução tecnológica: a Inteligência Artificial.
Confesso que, de início, como um bom engenheiro de software, explorei as APIs da OpenAI e achei incrível poder desenvolver aplicações de forma tão rápida e eficaz — dois pilares que norteiam nossa forma de trabalhar na Bludot. Mas, com o tempo, comecei a perceber o grande impacto social e cultural dessa ferramenta e passei a buscar formas de prever padrões positivos e também negativos para o novo mundo pós-IA. Minhas buscas me levaram a um cenário menos caótico, porém não tão otimista, que teve início no século XIX: o início do uso da energia elétrica como produto acessível às grandes massas.
Este artigo busca analisar padrões históricos já vivenciados recentemente, a fim de traçar possíveis cenários para o nosso futuro em relação às tecnologias que avançam a cada dia e que têm se mostrado verdadeiros divisores de águas para a nossa civilização.
Desconhecimento inicial e ceticismo
A eletricidade, no início do século XIX, não passava de um espetáculo científico — até que Thomas Edison conseguiu comprovar sua viabilidade comercial. Com a IA não foi muito diferente: por muito tempo, a Inteligência Artificial foi tema de ficção científica, limitada a experimentos acadêmicos, tendo sua consolidação ocorrida agora, no período pós-pandemia da COVID-19. Nessa fase, ambas as tecnologias tiveram que se provar à sociedade, e o seu potencial como agentes de mudança cultural ainda não foi completamente compreendido.
Resistência à adoção
Na sua época, a eletricidade enfrentou forte resistência nas fábricas e em muitas cidades, que preferiram se manter dependentes da energia gerada por vapor e gás natural. Com a IA, ainda há muitas pessoas resistentes ao seu uso. Com os argumentos mais diversos, algumas correntes beiram o negacionismo, alegando que as ferramentas tecnológicas são insuficientes ou incapazes de captar a essência humana (isso sem mencionar os que já culpam os servidores que hospedam os modelos generativos por contribuírem diretamente para a pegada de carbono — assunto para outro artigo em breve). É natural que o disruptivo enfrente certa resistência. Aqui entra o papel crucial das big techs: desmistificar seu uso e integrar esses recursos gradualmente aos dispositivos do cotidiano.
Infraestrutura invisível
Você está lendo este artigo em um computador, celular ou tablet (eles ainda existem?). Seja qual for o dispositivo, ele é alimentado por energia elétrica — e, provavelmente, você não precisou planejar sua geração, transmissão ou armazenamento. Por quê? Porque tudo isso é gerido por uma indústria que simplifica esses processos. Foram anos de políticas públicas, incentivos fiscais, competição de mercado e uma crescente demanda por energia elétrica em lares e indústrias.
O mesmo tende a acontecer com a IA: ela poderá estar embutida no seu despertador, no seu carro, no seu smartphone, no seu computador — e até nas ruas, que talvez já não estejam mais congestionadas (um sonho pessoal). Essa adaptação tende a ser silenciosa e gradual. Quando percebermos, ela já estará presente em todas as nossas ações, diretas ou indiretas.
Necessidade de regulação e novas normas
Aqui entra um ponto que tem despertado especialmente o meu interesse. Como um bom cientista, tenho estudado alternativas para contribuir com a ajuda humanitária, mas frequentemente esbarramos em regulamentos e normas. Por quê?
Porque, historicamente, foi justamente graças aos regulamentos e normas que determinadas tecnologias se tornaram viáveis em larga escala. Um exemplo claro é a eletricidade: sua ampla adoção só foi possível quando surgiram padrões, normas técnicas e políticas públicas que garantiram segurança, compatibilidade e infraestrutura para sua aplicação massiva.
Da mesma forma, a Inteligência Artificial — com todo seu potencial transformador — também precisa de marcos regulatórios claros e atualizados, que permitam não apenas o uso seguro, mas também a confiança social necessária para sua aceitação e expansão.
Adoção desigual
Nem tudo são flores. Sabemos que o acesso à eletricidade é um dos pilares dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Onde ela falta, o progresso é limitado: não há plantio eficiente, a refrigeração de alimentos é um luxo, e cadeias produtivas inteiras colapsam.
Com a Inteligência Artificial, temo que ocorra o mesmo — e isso seria ainda mais grave. Imagine uma nação que dispõe de IA: ela otimiza processos, acelera pesquisas científicas, desenvolve vacinas em tempo recorde e organiza campanhas de imunização com apoio logístico inteligente. Mas e as nações sem esse recurso? Não conseguirão sequer oferecer consultas clínicas básicas, nem encontrar soluções sustentáveis para a produção de alimentos. Estarão fora do jogo.
Por isso, acredito que as potências tecnológicas deveriam estabelecer bases públicas e abertas de IA para fins humanitários, atuando como centros de consulta e suporte. Com um investimento muito inferior ao de enviar especialistas a campo, essas IAs poderiam oferecer diagnósticos, orientar plantios, prever surtos epidemiológicos e até antecipar crises humanitárias — como estações meteorológicas da nova era. Com incentivo governamental, essas redes poderiam armazenar e aprender com os atendimentos, aprimorando-se continuamente e tornando-se ferramentas globais de prevenção e cuidado.
Conclusão
Ao final desta análise, fui tomado por um otimismo singular diante do potencial que temos de realizar uma revolução em inúmeras áreas do conhecimento humano. Também percebi o quanto é fundamental que haja incentivo para a adoção dessas ferramentas por parte de iniciativas públicas e privadas.
Confesso ter ficado preocupado com a questão da desigualdade e com o quanto ela pode se intensificar. Se você, assim como eu, está determinado a contribuir com a sociedade por meio da tecnologia e da disseminação do conhecimento, primeiramente, gostaria de pedir que compartilhe este texto com quem julgar relevante. Além disso, te convido a acompanhar: toda quinta-feira pretendo trazer um novo texto discutindo tecnologia, ciência, sustentabilidade e, por que não, um pouco sobre o futuro.
Obrigado por ter chegado até aqui — e até a próxima semana!
Álisson Rodrigues Teles
CEO & Fundador da Bludot